A questão mais central e ao mesmo tempo menos esclarecida da existência humana é a razão da vida e o que pode torná-la feliz. Filósofos e teólogos tentam encontrar respostas há mais de três mil anos, mas ninguém tem uma solução definitiva. Por isso devemos respeito à pluralidade de crenças existentes e nos munir com humildade ao pensar e teorizar a respeito.

Uma das minhas crenças preferidas é o senso de propósito. Através dela podemos acreditar que a vida com uma razão é uma vida que vale a pena ser vivida! Sob essa ótica torna-se nossa responsabilidade a nossa própria felicidade, quando definimos qual será o propósito.

Libertador e ao mesmo tempo amedrontador, pois a insegurança de atingir um objetivo ou dúvida sobre ter feito tudo o que era possível para conquistá-lo sempre estará rondando nossos pensamentos.

A pergunta que naturalmente segue é: existe propósito-chave que pode trazer felicidade e razão para a maioria? Acredito que sim. Jesus nos ensinou amor ao próximo, a isso chamamos Ágape. Doar-se. Fazer a diferença na vida de alguém, ou “alguéns”.

Gigantesca doação é ter filhos responsavelmente. Ceder seu corpo para alguém que você ainda nem conhece. Nesse momento a mãe sente mais, descobre laços e sentimentos que nunca se apagarão. A mãe nasce na concepção, o pai é gestado juntamente com a criança, nasce no parto do filho.

Os primeiros anos são de entrega. Literalmente! Entrega-se o descanso, o sono, a tranquilidade, o trabalho… É nesse momento que a entrega, quase que por mágica, transforma-se em razão e propósito.

A fragilidade do dependente aguça ainda mais o amor natural. Tudo isso e mais um pouco transmuta o propósito em felicidade. Não a felicidade do êxtase, ou do prazer momentâneo, mas a felicidade de sentir-se necessário e presente. Necessariamente presente.

Trabalho há anos ajudando casais com dificuldades em ter filhos. A cada diagnóstico compartilho e vivo a dor dos pacientes, da mesma forma que divido com eles a esperança e fé na eficácia dos tratamentos.

A dor do casal que não consegue engravidar é a dor da ausência, daquilo que deveria, mas não foi vivido. Da procura pelo propósito. Felizmente a medicina tem muitas opções, o que pode resolver muitos casos, além da linda solução social que é a adoção.

Descubro o maior prazer que essa profissão pode trazer quando quase anonimamente, em algum parque ou shopping center, vejo, à distância, casais previamente sem filhos, agora com seus pequenos.

Consigo encontrar nos seus olhos algo que filósofos e teólogos procuram há mais de três mil anos, ali diante da nova presença que se criou.

Folha_de_Londrina(2019-03-27)_page2

João Guilherme Grassi, médico especialista em infertilidade

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