Brasil dá mais um passo rumo à revolução no tratamento do câncer

Saúde
17/10/2016

Anvisa libera medicamentos imunoterápicos, armas consideradas promissoras contra a doença; terapia propicia mais qualidade de vida aos pacientes

Ricardo Chicarelli

Ricardo Chicarelli - Priscila Rodrigues viu o tumor que tomava 80% do pulmão reduzir 60% em apenas três sessões de
Priscila Rodrigues viu o tumor que tomava 80% do pulmão reduzir 60% em apenas três sessões de “pré-imunoterapia”; ela é forte candidata a integrar protocolo de pesquisa no Hospital do Câncer de Londri

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou, no início deste mês, o uso do Keytruda (pembrolizumabe), um novo medicamento imunoterápico para o tratamento de melanoma avançado, o câncer de pele mais agressivo e letal. É mais um passo que o Brasil dá em direção à imunoterapia, tratamento que está sob os holofotes da ciência oncológica de ponta e deve revolucionar a luta contra a doença. Em abril, a Anvisa já havia liberado o uso do Opdivo (nivolumabe), o primeiro imunoterápico que trata câncer de pulmão e melanoma metastático no País.
Há várias décadas, a medicina vem buscando maneiras de usar nosso próprio sistema imunológico para enfrentar doenças. Nos últimos anos, no entanto, novas descobertas fizeram com que essa estratégia de tratamento apresentasse excelentes resultados contra o câncer. A ponto de a Sociedade Norte-Americana de Oncologia Clínica (ASCO) eleger a imunoterapia como o maior avanço contra o câncer em 2015 e 2016.
A imunoterapia não é um tratamento absolutamente novo na oncologia. “Temos estudos desde a década de 1970, que mostravam como o sistema imunológico está implicado no combate às células tumorais. Os resultados eram modestos e isso acabou se perdendo quando os estudos se voltaram para a quimioterapia”, conta o oncologista Gabriel Lima Lopes. Segundo ele, só nos anos 2000 as pesquisas em torno da imunoterapia foram retomadas nos Estados Unidos.

COMO FUNCIONA

A imunoterapia é feita de maneira intravenosa ou subcutânea, através de diferentes medicações que utilizam receptores presentes nas células agressivas do tumor, os chamados linfócitos efetores. Essa medicação age como anticorpos, que se ligam aos receptores desses linfócitos e bloqueiam um mecanismo que o câncer usa para se esconder do sistema de defesa do organismo. “Para crescer e se disseminar pelo nosso corpo, o tumor se esconde do sistema imunológico. Os imunoterápicos soltam o freio do sistema imune, incentivando o organismo a identificar e combater as células tumorais”, explica Lopes.
Segundo o oncologista, essa estratégia funciona em casos de tumores mais imunogênicos, ou seja, que provocam a reação do sistema de defesa do organismo. Esse sistema precisa reconhecer a célula tumorosa para conseguir destruí-la. “A gente sabe que existe um nicho de tumores que é mais imunogênico e outros menos. Apesar de receberem o nome de câncer, existe uma heterogeneidade enorme entre os tumores. Quando comparamos, por exemplo, o câncer de pulmão ou de estômago com o câncer de tireoide são doenças completamente diferentes. A carga de mutações dessas doenças é muito distinta uma da outra”, esclarece.

EFICIÊNCIA

O que se observou nos últimos três anos, quando a imunoterapia passou a ser estudada com mais afinco, foi que quanto mais mutante, mais antigênico é o tumor e, portanto, maior a taxa de resposta a esse tipo de tratamento. “Na prática, quanto mais agressivo for o tumor, provavelmente, mais eficiente será a imunoterapia”, acrescenta o médico.
Assim, a imunoterapia trouxe resultados positivos para as doenças mais difíceis de serem tratadas no passado: melanoma e câncer de pulmão avançado, justamente as que já têm indicação formal desse tratamento validada no Brasil. “Mas a gente sabe que para outros tumores, em que a resposta não é tão brilhante, talvez haja uma forma de ter resultados melhores com a imunoterapia. É nisso que estão focados os estudos hoje, que caminham a passos largos. Por exemplo, num câncer de mama, só precisamos fazer com que o tumor fique mais imunogênico para responder à imunoterapia.”

ALTO CUSTO

O acesso à imunoterapia vem sendo muito discutido, principalmente por conta do alto custo do tratamento. Os imunoterápicos chegam a custar U$ 30 mil, algo em torno de R$ 100 mil. “No Brasil, quem tem algum tipo de tumor avançado, especialmente melanoma e câncer de pulmão, e tem plano de saúde, já pode receber essas medicações em instituições privadas”, afirma o oncologista. Já para pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS), a única chance, por enquanto, é tentar ser incluído em protocolos de pesquisas clínicas.
O Hospital do Câncer de Londrina já tem um projeto de seleção de pacientes para um estudo clínico de imunoterapia. “O paciente precisa atender alguns critérios porque o que temos aqui é para algumas indicações bem precisas de combinações com imunoterapia”, detalha Lopes. Segundo ele, o projeto ainda está em fase de seleção de pacientes.
Priscila Regina Rodrigues, de 33 anos, é uma forte candidata a integrar o protocolo de pesquisa em Londrina. Há quatro meses em tratamento combinado de quimioterapia com anticorpos monoclonal – algo como uma pré-imunoterapia –, ela viu o tumor que tomava 80% do pulmão reduzir 60% em apenas três sessões. “Antes de começar o tratamento, eu cheguei a ser desenganada pelos médicos. Diziam que minha chance era mínima”, lembra. No caso dela, a imunoterapia só deve entrar no final do tratamento, quando o tumor se tornar resistente à quimioterapia.

Juliana Gonçalves
Especial para a FOLHA

 

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